Diziam que a vida é difícil, e que depois de um tempo a gente fica ranzinza. Diziam que as nuvens não são feitas de algodão. Disseram que a chuva alimenta as plantas mas que se nós ficássemos sob ela ficaríamos doentes. Então guardamos nossas danças para dentro das casas, escondidas de todos, com medo do que pudesse acontecer. Diziam que júpiter era um fracasso, mas por debaixo de tanta coisa sempre pode haver um sol. Não acredite no que te dizem, porque eu sempre achei que envelhecer é se aproximar do início, é voltar a ser criança.
Então se joga na chuva, põe os braços pro alto e sente cada pingo deslizar na pele, porque o que é mais simples traz a melhor felicidade grudada em si. Você é mais uma gota nessa água, mata a sede que te arranha a garganta, veja o que é bonito ao teu redor árido, vá viver! A rua é tua, faça dela teu palco e desligue o som da platéia. Não espere de braços cruzados o frio percorrer tuas espáduas e você perceber que já é o último ato, porque quando a cortina se fechar você vai querer ter dançado valsa e gritado e dito adeus e ter voado sem que houvesse qualquer limite nas nuvens.
Vai querer reunir netos em volta da tua poltrona e contar estórias de vida e lições que eles só vão querer aprender depois de passar pelo mesmo. Porque você sempre soube que a nossa hora um dia chegará, você vai querer ter se envolvido por furacões e ter se deixado rodopiar no amor e tão, mas tão intensamente, porque lago raso nunca dá um bom mergulho. Então se jogue no que é profundo. Não apenas se liberte, mas não deixe a tua mente te prender também.
Eu te levo até a ponta do precipício, assim a gente enxerga nas entranhas a vida, o valor. Aí você percebe que tem dentro de si a coragem de um mundo inteiro, a força de mil toneladas e a humildade de mil lágrimas. Vá iluminar todo mundo com teu brilho, vá aquecer todas as almas com o calor que você guarda no aconchego da tua mente. Porque você é muito mais do que parece ser, muito mais do que uma comédia romântica ou um livro que aperta o peito. Tira a estória decorada dessas tantas linhas que lê e a jogue na tua vivência, só não tem final feliz quem está vivo e não sabe viver.
(Source: b-a-n-d-o-l-i-m, via conotar)
(via outubros)
No tempo em que éramos duas crianças, Marisa era uma menina gorda e chata. Odiava seus próprios olhos por serem graúdos demais. Anos depois, quando um namorado disse-lhe que eram as primícias da sua beleza, passou a bendizê-los como sendo seu único tesouro. Repetiu-se a historia com os peitos.
Marisa cresceu em uma cidade pequena, dividindo a pacata Ilha dos prazeres e a capital. À medida que se tornava mulher sua beleza e sensualismo se tornavam maiores e evidentes, despertando os desejos sexuais mais vulgares em homens e mulheres. Mas em si, Marisa sustentava explosões diárias de alegria e dor por conta das paixonites semanais.
Viveu em uma casa de boêmios, com pessoas da noite e amantes declarados da musica popular. Influenciada, criou gosto por violas, mas nunca aprendeu a fazer nelas um som agradável. Os pais desconheciam e não mostravam muito interesse na poesia, nela escrita, mas a cantavam sem perceberem-na.
Conhecendo um rapaz, poeta, apaixonou-se perdidamente. Por ele e pelos versos. Achava-o o melhor, porem não conhecia outros que escrevessem. Com ele aprendeu a amar e depois dele conheceu muitas novidades na cama. Quando o prazo do namoro venceu-se, sofrendo, descobriu um amor pela poesia. Tornou-se culta e desenvolveu uma historia de amor com as palavras. Devo dizer que as dominava e com enorme sutileza.
Marisa amou, de forma que realmente morresse para si, aos dezenove. Era um rapaz galante e esbelto, mas era um sacana. Mais que os outros. Foi quando atentou-se para a dor que era a vida de um poeta e sua alma doente, que por certo, nela adormecia, mas sempre lhe doeu. Por este rapaz, sentia-se puta. Poderia aceitar facilmente ser amante, se ele a quisesse. Isso parecia fazê-la infeliz, mas teria a felicidade de desfruta-lo de alguma forma. Por amá-lo tanto e de forma que muito se doía, os versos tornaram-se murmúrios de desanimo e aleluias do coração. Contavam desgraças e felicidades da vida. Coisas corriqueiras, mas que esbanjavam lirismo e talento. Não se fazia amor daquela maneira, não se escreviam textos daquela forma. Marisa era a própria irreverencia, e talvez essa seja a sua marca. Quem vive a poesia não entende o amor, mas desfruta a felicidade das suas raízes tristes.
Pobre Marisa Rica.
Odiava as pessoas, mas as achava irresistíveis. Bebia muito bem e amava muito mal. Continuou trabalhando no cerne do afeto, nas diferentes polaridades de vida, tanto que tinha a ideia que a humanidade poderia ser melhor, se todos os brancos fossem mais negros e os negros mais brancos.
Cantavam em casa “Pra quê chorar se existe amor?”. Pois de tanto ouvi-los profetizar, acreditou. O amor tornou-se a esperança na felicidade. Viciou em amar, mais que em beber, mas que em fumar.
Carregando no colo a arte e o seu peso, Marisa repetia: Ama que serás feliz. E cria.
(Ravena Lamêgo)
Olga sorria do sol que brilhava no vidro da porta, invadia o quarto e esquentava seu corpo desanimado. No outro dia teria de empresta-lo, mesmo exausto, ao seu trabalho. Ainda sendo quem era, no escritório precisavam da sua energia, sua alegria e sua animação. Coisas que só explanava lá. Desenvolvia suas habilidades em muitas áreas, escrever, cantar, pintar, mas principalmente, se treinava para ser feliz um dia. Talvez isso fosse bom, quem sabe poderia ser triste demais. Mas que poderia fazer se Olga entendia que esse seria o destino que deus lhe reservara? Deus fora alguém muito mal com Olga na sua infância. Reservou-lhe um homem desgraçado para molesta-la, pais que não se amavam e um avô maravilhoso, que de tão bom e amável, morreu quando ainda era uma menina indefesa. Escrevera até ali sua historia a lápis e canetas com tintas de sangue, tudo em uma folha escura e desdenhosa.
Invariavelmente, meio dia, largava-se na poltrona da sala que dava para a rua, e lamentava-se de si. Neste dia, a poeira subia do chão de pedras na rua e alcançava altura de dois metros. As crianças pulavam e corriam entre ela, sem repara-la. Entretanto o que chamava a atenção de Olga eram os rostos desconhecidos que passavam, devagar ou à toda velocidade. Imaginara se cada um deles deus marcara com a mesma mancha de terror que a concedeu. Quando as crianças percebiam a mulher, a enxergava com livros e dores entre as mãos. Se o tempo estava aberto, libertavam a angustia marcando suas faces ingênuas e doces com lagrimas cinza, terminando por limpar seus pequenos rostos empoeirados.
Adorava crianças, mas todas as vezes que uma tentou se aproximar a recusa foi instantânea. Lembrou-se de quando uma colega de trabalho pediu-lhe que ficasse trinta minutos com sua filha, e antes que se completassem dez minutos no relógio, atacada pelas lembranças, Olga trancou-se no banheiro e rasgou o pulso com a caneta. Os minutos que restaram foram usados para estancar o sangue e esconder a ferida. Saindo do banheiro, a mulher acabava de entrar na sua sala. Obrigada querida. Deus a abençoe! Vamos, Aninha. Olga manteve-se parada olhando as duas atravessarem a avenida. A criança loura com uma fita vermelha dada em laço frouxo, quase caindo da cabeça. Para cada passo que ganhava, uma lagrima corria dos olhos ao fim do pescoço, regularmente. O vento contrario ao caminho que seguia arrancou a fita e a levou dançante, enquanto Ana olhava para trás. Amava Olga de longe, sem conhecê-la.
O olhar, a fita e a cicatriz no pulso, gravaram o acontecido em Olga. Brutalmente. Quando, enfraquecida, Olga conseguiu exortar os demônios e suas lembranças, o céu já estava escuro e a noite apavorava.
Havia um pormenor que jamais poderia ser esquecido sobre Olga e suas deficiências: Cheia de lembranças ruins, Olga guardava o melhor de si em um invólucro que até aquele momento jamais fora descoberto por alguém. E se fosse para compara-la a algo, seria com a lua. Bela, esburacada, negra e só.
(Ravena Lamêgo)
Eu poderia lhe dizer como um severo escritor, deixando todas as vivências que carimbo diante de tua lente. Encarnei muita gente… Maria do Carmo, a Glória, Aparecida, José, Luís, João, Marcos, Melissa, César, Joana, Polaina, Eliana e tantos outros personagens que sopro por aí… Poderia contabilizar quantas luas guardei pela cobardia dos raios poentes. Poderia constatar que a grande parte dos que julguei ser amizade, tornou-se retângulos de alvenaria, noites, domingos, cartas, cores, silêncio… E vida.
Poderia também narrar quantos “adeus” saudei desacreditando na partida. Quantas saudades somaram sendo que sempre pereço no negativo. Quanta alegria inventei num domingo. Quantas rimas arquitetadas para que a razão tivesse um teto. Quanto carnaval pulei na angústia de um inverno.
Poderia citar daquela menina que dança torto. Que se julga na incapacidade de reger suavidade e permanece na cochia em dia de estréia. Dança no ritmo que teu quarto soa, dos tambores mudos, e de braços arqueados. Inventa uma clave de sol para não ser só “dó” (maior).
Permeia na luz pequena. Sendo um alcoólatra que não arreda do vício. Bebe de solidão e cartas que nunca depositará um selo.
Poderia alertar-te da corda que jogo para que puxes ao fim.
Poderia dizer quantas armas você me matou, de quantos tiros tua voz lançou sobe minha tristeza. De quantas melodias cantei sem dueto. Das luzes que via na cidade e avistava tanta gente. Eu adivinho o nome, o que pensavam, do que viviam, para onde iam. Eu inventava gente, porque cansava conviver comigo.
E como se faz quando se perde a altitude? Dos sonhos? Das esperanças sem rés? Dos paradoxos filosóficos? O que faço sem o sopro de tua boca para alçar vôo num céu só? Espero na terra ou aguardo o outono?
E Porque tanto temor? Porque você apagou a vela na sala e eu não suporto escuro. Eu poderia lhe dizer que me exilei de teu quarto, mas você residia em outro país. Eu tocava em teus olhos, e você afagava minha alma. Eu poderia dizer tudo isso, e não disse.
Há um trecho na carta que enderecei-lhe que não atentou-se. Há um olhar que caiu que não leu. Há uma discussão que não travamos. Há uma paisagem que não foi desfrutada. E no mato virgem eu me embrenhei, por medo do fogaréu. Eu vesti o vilão, por medo do conto ter um término fúnebre. Eu coloquei um cigarro na boca para evitar morrer de amor. Houve um momento que o silêncio foi tão espesso que pensei ser o céu espreitando diante da saleta e o quarto. Você sorri e eu rio. Você sorri e eu choro. Eu acinzento todo o meu olhar e subo nos extremos picos.
E eu me culpo, pois “a culpa é minha e jogo em quem eu quero”. Digo para a defesa que sou inocente e que a sentença seja reduzida num dia triste. Eu me culpo, pois enraiveço de não poder negar todo o nervosismo que sinto apesar de você estar olhando para o outro lado. Eu me culpo, pois aprendi á ser auto-suficiente e por hora, almejo um simples olhar de esguelha. Você me oferece um papel, eu vou me fazendo um livro. Você lê o prefácio e eu me contanto com a tua preguiça de textualizar. Eu me culpo, pois não consigo culpá-lo.
As pessoas estão insatisfeitas á todos os instantes. E me veneram por conseguir pousar de boa moça. Eu não estou bem à maior parte dos dias. Eu desligo á TV pela comoção miserável de um meio comunicativo que de informação que preste não há. Eu ouço música, pois melodia é gente que se esqueceu de ser letra. Não há motivos para sustentar um riso inocente, talvez seja de fato incoerente… Mas me apego como um sapato surrado e esburacado no pé, que o verde desbotado torna-se familiar. Eu me apego no velho por preguiça de ir pra rua, e comprar um novo. Se irá laçar…Eu ainda calço 36 no pé de 38.
Eu faço um drama para ver se ficas até o final. Infelizmente no meio do segundo ato, tua sombra passa pela porta.
“A natureza não precisa de arte
O amor não precisa do poeta
Às vezes, é o porto que parte
E é o alvo que procura a seta
Talvez seja filosofia
Talvez seja falta de assunto
Mas não há quem dirá (quem diria)
A verdade só, só junto
Que junto a verdade aparece
E ser só metade é ser só
E só quem amou sabe disso
Gigante olha a pedra e vê pó.”(Mudar dói, não mudar dói muito - Oswaldo Montenegro)
(via 60milanos)
O sol nasce a cada dia, trazendo um verdadeiro espetáculo aos olhos
Mas, quem liga?
O homem está tão ocupado com sua vida corrida
(trabalho, preocupações, reclamações)
Que passa pelos simples momentos, sem perceber a beleza dos detalhes:
O nascimento de uma rosa embelezando seu jardim
O canto dos pássaros, trazendo música aos seus ouvidos, nas tardes e manhas
O belo som da chuva, que floresce os bosques e jardins
As nuvens no céu, que parecem mais uma obra de arte, pintadas por Picasso
Mas quem se importa com esses simples detalhes que deixam a vida mais colorida?
_O homem devia deixar de se preocupar e reclamar tanto, e dar mais atenção as belas coisas da vida!
(J.Z)
(Source: minhamemoriacheiadepalavras)
O sol nasceu. Saiu detrás das montanhas e banhou o jardim com um calor saudável e gostoso. A relva ainda úmida, deixando evaporar-se pela luz. Está na hora.. começou o baile.
Dona Rosa foi a primeira a abrir. O vestido vermelho, perfumado à rigor, abraçando todo o corpo. Não era jovem.. a mais experiente entre as flores. Mas quem precisa de beleza jovial tendo toda a elegância?
Logo atrás a fila de cores e cheiros foi-se abrindo. Todas querendo conquistar, todas tentando seduzir os milhares de insetos que adentravam o recinto. Zumbiando, rastejando, pulando.. cada um com seu gosto, cada um com seus fetiches.
Num canto meio escuro, onde a sombra se deita, a Flor Cadáver espanta as outras anfitriãs. Odeia o mundo e, por isso, se fecha pra ele.. passa o tempo e sentido inveja das demais, sai também pra dançar. A veste negra sobre a pele pálida dá o contraste até belo. Olhos irritados, pois só vê o sol uma vez por ano. Todos a olham com maus olhos, eles cochicham nas suas costas, mas há sempre um ser com gosto refinado. Quando a hora certa bate, alguns milhares de necrófilos e outros coprófilos aparecem para bajulá-la.
E entre aromas distintos e excitantes, os insetos vão fazendo a festa, mas sabendo que as flores apenas aproveitam de sua capacidade reprodutora, de espalhar por aí sua beleza futura.. de fazer a espécie floral não acabar.
No meio da multidão aquela Bolsa de Pastor se destaca com seu traje balonê. Dançando, rodando, soltando beijinho e piscando. Aquele típico estilo satisfatório, hiperativa.. atrai os mais iludidos insetos. Aqueles que sonham com uma noite quente, selvagem e amorosa. O escolhido quase vai ao chão quando seu olhar bate ao dela. Sendo conduzido à sua dança, nem percebe quando entra na armadilha, por isso é tão difícil de sair. Morre feliz, bêbado e de barriga cheia. Ainda ganha um carinho antes de partir. Talvez esse inseto tenha sido, realmente, o mais sortudo da festa.
Os desprovidos de asas nem sonham em tê-las, vão, com seus pés no chão, atrás da primeira parceira. Nunca é fácil, geralmente as rasteiras tem espinhos.. elas precisam de proteção contra insetos insensíveis. No meio da procura, olham pra cima e veem toda aquela suruba. Pra quê todo esses esforços? Acham que só porque saem do chão vão achar coisa melhor. Pobres criaturas.. sonhadoras.
Praqueles ganhadores que voam alto existem as cores mais lindas. Esbanjam-se. As flores lá de cima viviam no paraíso, pois seus polinizadores eram os mais gentis e cordiais. Com inveja delas, a Trepadeira desafia a gravidade e escala as concorrentes. Embora, mesmo lá no topo, não encontram pretendentes. Enraivada, estrangula as outras pobres belezas.
No jardim a orgia continua. Flores usando insetos.. insetos amando flores. Aquilo tudo me lembra algo que já vivo. – O jovem jardineiro observava atento – As diversas flores são a poesia, e os insetos coletores, os poetas.
Bruno Simão
(Source: filosofias-de-um-largado)